Contemplação

Contemplação

De dia, sob um céu imenso
De um azul intenso
Ponho-me a cismar
E sinto meu coração palpitar

À noite, que sinfonia celeste
Se estende de norte a sul
E de leste a oeste
No esplendor dum escuro azul!

Como não te adorar, Senhor,
Ao tua obra contemplar
E em gratidão e louvor
De alma e coração te adorar?

Dá que tenhamos a consciência
De que precisamos nos curvar
Perante a tua onipotência
E da obra de tuas mãos cuidar.

Lothar Carlos Hoch
Praia da Pinheira, 25/08/2016

A felicidade

A felicidade

A felicidade é gota de orvalho
Que escorre límpida e cristalina
Pelas folhas tênues da primavera
E amacia os torrões endurecidos
Que se formam ao longo do tempo
Na árida travessia pelas veredas da vida

A felicidade é pura
Inocente e sem dolo
É fragmento de vida
Que brota espontânea
Dos mananciais interiores
Que permanecem virgens
Como a relva da manhã
Dos tempos primordiais

Felicidade é a fonte perene
Do brilho nos olhos da criança
E da alegria serena do ancião
Não é símbolo de ingenuidade
Senão da integridade de coração

Oxalá não se esgote jamais
Em meio às agruras e à maldade
Dos tempos atuais
A tênue fonte da felicidade
A jorrar do nosso interior

Eis que assim permanece vivo em nós
O sopro primevo
Do Espírito divino
Que pairava sobre as águas matinais.

Lothar Carlos Hoch
São Leopoldo, 29/05/2012

Obrigado, Senhor!

Obrigado, Senhor!

Obrigado, Senhor,
que me teceste de forma tão maravilhosa
no seio de minha mãe
e me deste o privilégio de ver a luz do dia
e me tornar um peregrino deste mundo
sem participação alguma de minha parte
em minha concepção
nem no ato de nascer.

Exclusivamente de ti, Senhor,
emana o dom da vida e o vigor que a sustenta.
No aconchego de minha família
me permitiste experimentar da seiva do amor
e, pela tua mão, aos poucos,
foste me introduzindo na arte de conviver
com as demais pessoas,
a assumir responsabilidade por mim mesmo
e a ser solidário com os meus companheiros de jornada.

Agradeço-te, de modo especial,
pela esposa e os filhos que me deste.

Como no primeiro dia em que vi a luz
continuo, ainda hoje, dependendo da tua graça
para a condução da minha vida,
à semelhança do teu povo primeiro
que, na medida certa, sustentaste com o maná
e com as fontes de água viva
que jorravam das rochas,
em sua jornada pelo deserto
rumo à terra prometida.

Dá, Senhor, que eu jamais me exalte
ou ame a mim mesmo mais do que aos outros;
e preserva-me da tentação
de fazer o bem com o propósito
de receber recompensa.

Concede-me a sabedoria necessária
para fazer o melhor de cada dia de vida
que vieres e me conceder sobre a face da terra.

Por fim, Senhor se me permitires,
desejo te pedir que,
quando a minha hora chegar,
eu seja paciente no sofrimento
e possa crer firmemente na tua presença,
mesmo que esta venha a permanecer
envolta em mistério.

Pois, creio que,
se de ti recebi o fôlego da vida,
quero, desde logo, aprender
a entregá-lo de volta a ti
de forma confiada
e com gratidão em meu coração.

Lothar Carlos Hoch
São Leopoldo, 17/02/2012

A ciranda da vida

ciranda

A ciranda da vida

“Ciranda cirandinha”
a vida começa
bem muidinha
não mais q’uma promessa

“vamos todos cirandar”
aos pouquinhos
inda pequeninhos
aprendemos a nos virar

“vamos dar a meia volta”
viver em comunhão
lidar com a revolta
uma grande lição

“volta e meia vamos dar”
aprender a amar
com calma amadurecer
em sabedoria envelhecer

Lothar Carlos Hoch
Praia da Pinheira, 30.12.2014

Cicatrizes

Cicatrizes

Cicatrizes são marcas do passado
Vulcões semi-extintos
Que de tempos em tempos
Agitam-se no ventre humano
Gerando ansiedade no seio da alma

Cicatrizes resultam de contradições
Que, em meio às cinzas,
Manifestam vestígios de um fogo
Que insiste em permanecer ardendo
No recôndito do ser

Cicatrizes são dores de parto
De um sentimento persistente
Que, abafado pelo medo,
Infiltra-se, de soslaio, na alma
Para perturbar nosso coração

Cicatrizes são brasas vivas
De natureza ameaçadora
Que foram apagadas antes do tempo
E impedidas de se manifestar
Devido ao núcleo de culpa que contêm

Cicatrizes são percepções de incompletude
Que clamam por ser assumidas
Para, assim, promover a reconciliação
Do ser humano com seu passado
E, em última instância, consigo mesmo.

Lothar Carlos Hoch
Praia da Pinheira, 04/05/2013