As camélias do meu jardim

As camélias do meu jardim

Quando estive pela última vez visitando a minha mãe no interior do estado,
eu trouxe de lá algumas mudas de camélias que, cresciam próximas à casa onde nasci.
Sabendo que ela não viveria mais por muito tempo,
eu as trouxe como uma homenagem a ela que sempre cuidava tão bem das suas camélias.
Plantei-as no meu jardim, em São Leopoldo, e elas vingaram.

No rigor do inverno, época em que minhas camélias estão em flor, converso com elas e
dou-me conta de algumas coisas.
As camélias do meu jardim florescem no seu devido tempo,
tanto as vermelhas como as brancas.
Elas florescem em São Leopoldo do mesmo modo como floresciam cinqüenta anos atrás
em São Pedro do Sul.

Estou convencido de que algumas coisas nesse mundo de Deus não mudam.
Existe uma força maior que as mantém como são.
No livro de Gênesis está escrito: “Deus falou, porei nas nuvens o meu arco;
ele será um sinal da aliança entre mim e a terra” (Gen 9,3).
O arco do qual o texto fala é o arco-íris.
O povo da época via nele um sinal de que Deus mantém este mundo,
que zelará pela sua preservação, que manterá os corpos celestes no seu curso e,
assim creio, cuidará que aquilo que é verdade permaneça sendo verdade.

Dizemos que tudo muda. Efetivamente nós mudamos, os tempos mudam, a natureza
se renova, os valores mudam. E é bom e necessário que assim seja.
Mesmo assim, creio que aquilo que está por trás de tudo, o que sustenta o universo,
os valores essenciais que norteiam a conduta humana não mudam. Não podem mudar.
Se estes mudam tudo se desagrega. Alguns fundamentos precisam permanecer,
tanto para o equilíbrio do universo, quanto para o equilíbrio da sociedade.
O que é bom, o que é justo e correto não pode ser relativizado.

As camélias do meu jardim não são imunes às mudanças do tempo,
elas – como todos nós – sofrem as influências do meio ambiente.
Mas, ao preservarem sua essência de camélias vermelhas e brancas,
que florescem no seu devido tempo, tanto em São Pedro do Sul quanto em São Leopoldo
ou na longínqua Austrália, elas dão um testemunho silencioso de que há leis,
verdades e valores fundamentais que precisam permanecer e ser cultivados
ao longo de toda vida e em todos os tempos e em todos os lugares.

Lothar Carlos Hoch
São Leopoldo, 23/09/2006

Coram Deo

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Coram deo

Senhor! Não tenho noção
Da minha insignificância
Diante da magnitude do universo
Das forças que o regem
E dos mistérios que contém

Não obstante, quero crer,
Que sou um ser especial
Pois me dotaste com a consciência
E com alguma capacidade
De discernir entre o bem e o mal

Mas dentre os dons mais sublimes
Com que me presenteaste
Estão o senso artístico
A sensibilidade de coração
E o sentimento de gratidão

Em vista disso, Senhor,
Peço-te com humildade
Que me concedas a sabedoria
De, ao menos, intuir o que significa
Viver perante a Tua face.

Lothar Carlos Hoch
São Leopoldo, maio de 2013

 

Lágrimas

Lágrimas

No mais alto das montanhas
vislumbro um lago imenso
no qual repousam,
em sono eterno,
as lágrimas de sofrimento
vertidas ao longo dos tempos
por crianças, mulheres e homens
de todos os tempos e lugares

Puras e cristalinas,
as águas deste lago
vão se tornando
cada dia mais profundas
por causa das esperanças frustradas
e das preces não respondidas
de todas almas sofrentes

Não obstante
Senhor, meu Deus,
– e peço com fervor
que não me desampares
em minha tênue fé –
eu quero crer,
que cada lágrima
deste poço imenso
não tenha sido vertida em vão
mas, por Ti acolhida,
repouse serena
no recôndito mais sagrado
de teu eterno ser.

Lothar Carlos Hoch
São Leopoldo, 09 de maio de 2011