Aconchego interior

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Aconchego interior

Surpreende-me que
de forma crescente
ando me visitando
a mim mesmo

Percebo que
não encontro
a harmonia interior
pela qual anseio

Não obstante, aos poucos,
vou me sentindo
mais à vontade
em minha própria pele

Seria isso um aperitivo
do aconchego e da paz
que a eternidade
nos reserva?

LCHoch São Leopoldo 19/02/2014

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Crepúsculo de outono

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Crepúsculo de outono

Nuvens escuras passam rápidas
Pelo céu de outono
disputando espaço com o sol
que só por instantes dá o ar de sua graça
e volta a ser eclipsado.

Nesta estação é impossível prever
o que o tempo nos reserva!

Com a mão apoiada na bengala,
Seu Manoel é perturbado
pelo ritmo frenético de carros e de pedestres
que circulam pela rua e pela calçada à sua frente,
e pelo tic-tac impassível do velho relógio de parede
que do interior do lar de idosos
ecoa impiedosamente em seus ouvidos cansados

O cheiro de comida caseira
vindo da cozinha
traz à lembrança o lar onde nasceu

E eis que vem a sua mente a imagem da mãe
a preparar ovos mexidos com lingüiça e torresmo
e o aroma de uma taça de vinho caseiro

Enternecido pela saudade,
Seu Manoel é surpreendido
pela presença da atendente do lar de idosos
que o lembra de que
suas fraldas precisam ser trocadas novamente

A propósito, bem dizia o sábio antigo:
“Entre fezes e urinas nascemos
e entre fezes e urinas morremos”!

A sabedoria bíblica, por sua vez, aposta que:
“Não temos aqui morada permanente
mas buscamos a que há de vir”

E ali, encostado às grades do lar que o acolhe,
mais intuitiva do que racionalmente,
Seu Manoel percebe que,
enquanto o velho relógio de parede
dita o ritmo do seu cotidiano,
o palpitar da vida lá fora passa de largo por ele

Por um instante,
o semblante do seu Manoel se transfigura
e sua alma se agita
nas profundezas do seu ser…

E, entre as brumas do tempo,
lhe vem a pergunta:
“Onde está o meu lar?
Estaria no passado, no presente, no futuro…?

Ou seria o lar fugidio
como o sol de outono
que se esconde atrás das nuvens
e só por breves instantes
nos dá o ar da sua graça…?

 

Lothar Carlos Hoch
São Leopoldo, 19-03-2014

 

Estações do tempo

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Estações do tempo

Tudo tem seu tempo certo sob o sol
Diz o sábio através das Escrituras
De tal modo que existe tempo de rir
E tempo de chorar

Tempo de semear
E tempo de colher;
Tempo de abraçar
E tempo de se afastar do abraço

Proclama igualmente o sábio
Que há um tempo de amar
E um tempo de odiar
Um tempo de guerra
E um tempo de paz

Em vista disso
Eu não deveria desprezar a vida
Mas ser grato por ter nascido
E pelo privilégio de poder viver

Ainda assim, não devo olvidar
Que o tempo que me oportunizou
O privilégio de nascer e de viver
É o mesmo que
Haverá de me devorar!

Lothar Carlos Hoch
Praia da Pinheira, 19/01/2014

Fidelidade

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Fidelidade

Habito em uma mansão
Cheia de espelhos
Quando me ponho diante deles
Vejo neles refletido
Um sem-número de corredores
Se abrindo para todos os lados

Nesses espelhos
Ainda que numa variedade
Incalculável de línguas
Consigo decifrar mutatis mutandis
Sempre o mesmo imperativo
Sê fiel!

Sê fiel…
Às pessoas que te geraram
Às tradições que te legaram
Aos valores que herdaste
E, por mais que por eles sofras,
Permanece fiel aos ideais que abraçaste!

Assim, com os olhos nos ideais fitos,
O coração e a mente convictos
Encontro meu lugar e meu espaço
No labirinto de espelhos
Que, ao invés de me confundir,
Transformam-se em luz para o meu caminhar.

Lothar Carlos Hoch
São Leopoldo, 29/06/2014