Pertença-1

2011-12 - pinheira 254

Pertença-1

Como não
tenho
ninguém

ninguém
me
tem.

Lothar Carlos Hoch
São Leopoldo, 05/09/2012

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Aconchego interior

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Aconchego interior

Surpreende-me que
de forma crescente
ando me visitando
a mim mesmo

Percebo que
não encontro
a harmonia interior
pela qual anseio

Não obstante, aos poucos,
vou me sentindo
mais à vontade
em minha própria pele

Seria isso um aperitivo
do aconchego e da paz
que a eternidade
nos reserva?

LCHoch São Leopoldo 19/02/2014

Crepúsculo de outono

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Crepúsculo de outono

Nuvens escuras passam rápidas
Pelo céu de outono
disputando espaço com o sol
que só por instantes dá o ar de sua graça
e volta a ser eclipsado.

Nesta estação é impossível prever
o que o tempo nos reserva!

Com a mão apoiada na bengala,
Seu Manoel é perturbado
pelo ritmo frenético de carros e de pedestres
que circulam pela rua e pela calçada à sua frente,
e pelo tic-tac impassível do velho relógio de parede
que do interior do lar de idosos
ecoa impiedosamente em seus ouvidos cansados

O cheiro de comida caseira
vindo da cozinha
traz à lembrança o lar onde nasceu

E eis que vem a sua mente a imagem da mãe
a preparar ovos mexidos com lingüiça e torresmo
e o aroma de uma taça de vinho caseiro

Enternecido pela saudade,
Seu Manoel é surpreendido
pela presença da atendente do lar de idosos
que o lembra de que
suas fraldas precisam ser trocadas novamente

A propósito, bem dizia o sábio antigo:
“Entre fezes e urinas nascemos
e entre fezes e urinas morremos”!

A sabedoria bíblica, por sua vez, aposta que:
“Não temos aqui morada permanente
mas buscamos a que há de vir”

E ali, encostado às grades do lar que o acolhe,
mais intuitiva do que racionalmente,
Seu Manoel percebe que,
enquanto o velho relógio de parede
dita o ritmo do seu cotidiano,
o palpitar da vida lá fora passa de largo por ele

Por um instante,
o semblante do seu Manoel se transfigura
e sua alma se agita
nas profundezas do seu ser…

E, entre as brumas do tempo,
lhe vem a pergunta:
“Onde está o meu lar?
Estaria no passado, no presente, no futuro…?

Ou seria o lar fugidio
como o sol de outono
que se esconde atrás das nuvens
e só por breves instantes
nos dá o ar da sua graça…?

 

Lothar Carlos Hoch
São Leopoldo, 19-03-2014

 

Estações do tempo

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Estações do tempo

Tudo tem seu tempo certo sob o sol
Diz o sábio através das Escrituras
De tal modo que existe tempo de rir
E tempo de chorar

Tempo de semear
E tempo de colher;
Tempo de abraçar
E tempo de se afastar do abraço

Proclama igualmente o sábio
Que há um tempo de amar
E um tempo de odiar
Um tempo de guerra
E um tempo de paz

Em vista disso
Eu não deveria desprezar a vida
Mas ser grato por ter nascido
E pelo privilégio de poder viver

Ainda assim, não devo olvidar
Que o tempo que me oportunizou
O privilégio de nascer e de viver
É o mesmo que
Haverá de me devorar!

Lothar Carlos Hoch
Praia da Pinheira, 19/01/2014

Fidelidade

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Fidelidade

Habito em uma mansão
Cheia de espelhos
Quando me ponho diante deles
Vejo neles refletido
Um sem-número de corredores
Se abrindo para todos os lados

Nesses espelhos
Ainda que numa variedade
Incalculável de línguas
Consigo decifrar mutatis mutandis
Sempre o mesmo imperativo
Sê fiel!

Sê fiel…
Às pessoas que te geraram
Às tradições que te legaram
Aos valores que herdaste
E, por mais que por eles sofras,
Permanece fiel aos ideais que abraçaste!

Assim, com os olhos nos ideais fitos,
O coração e a mente convictos
Encontro meu lugar e meu espaço
No labirinto de espelhos
Que, ao invés de me confundir,
Transformam-se em luz para o meu caminhar.

Lothar Carlos Hoch
São Leopoldo, 29/06/2014

A verdade

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A verdade

A verdade tem muitas faces
e circunstâncias
nunca foi e jamais será
um bloco monolítico de sentenças
que, perene e imutável,
através dos séculos reluz

Existe a minha verdade,
a tua e a que nos é comum;
temos a verdade passada
a presente e a futura
e, enquanto a vida dura,
da verdade estou a procura

Uma é a verdade da mente
outra a do coração
existe a verdade da pele,
a das vísceras e a da tradição;
a verdade pode ter a tez amarela,
ora negra, outras vezes branca

Sua consistência
por um certo tempo perdura
e a seus seguidores seduz,
mas, à revelia
da experiência que a subjaz,
uma nova verdade se faz

Há a verdade que escraviza
e a que gera libertação,
assim convém valorizar
a verdade do homem, a da mulher,
a da criança e a do ancião
todas elas vão se depurando
no sofrimento e na paixão

Temos a verdade pronta,
a que oprime e afronta;
aquela que se busca
e não se encontra
em meio à escuridão;
e aquela que, de súbito, desponta
na lógica do coração

Existe a verdade do opressor
a do oprimido
a da vítima
e a do seu algoz
que, sepultadas pela história,
clamam por justiça final

Não há um caminho único
da sua busca ansiosa:
uns a encontram nos astros
outros na oração;
existe a verdade que resulta da pesquisa
e a que é fruto da intuição

A verdade a tudo
e a todos transcende.
Ora nos questiona,
ora nos inspira,
e outras vezes nos liberta.
Quantos por ela morrem
e quantos, para a encobrir,
torturam e matam!

A verdade é busca perene
que instiga a imaginação;
inspira poesia, teologia, filosofia,
as ciências naturais e as exatas
que, todas elas,
a vislumbram apenas em parte

… Eis que a verdade,
– talvez para nos
preservar da soberba
ou pela incapacidade
de suportá-la –
prefere permanecer envolta
nas brumas do Mistério.

 

Lothar Carlos Hoch
São Leopoldo, 04/10/2011

A poesia

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A poesia

Seria a poesia
Um estado de espírito?
O palpitar da alma?
Um olhar no espelho?
O encontro comigo mesmo?

A poesia, assim eu creio,
É a busca honesta e autêntica
De entrar em sintonia
Com o meu eu verdadeiro

Eis que
Poetar é banhar os pés
Na vertente do rio
Que deságua sereno
Na plenitude distante do Ser.

Lothar Carlos Hoch
São Leopoldo, 17/06/2012

Pertença

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Pertença

Estou neste mundo sem ter pedido para nascer
A quem, pois, pertenço?
Quando criança, papai e mamãe diziam:
“Tu és nosso filho!”
E eu me sentia aconchegado.

Mais tarde papai e mamãe partiram
E, pela primeira vez, me perguntei:
“Se, outrora ao pai e à mãe eu pertencia
A quem pertenço agora?

Mais tarde encontrei uma esposa querida,
Prometemos nos amar e,
Até o fim de nossa vida,
Um ao outro cuidar.
E voltei a me sentir guardado.

Mas, um dia, como que de soslaio,
A pergunta primeva voltou a me visitar:
“Será que, de fato, pertenço a minha esposa?
Ou, porventura, haveria ela de me pertencer?

Quando nasceu nosso filho,
Muito nos alegramos e, orgulhosos,
O apresentamos aos amigos:
“Este é nosso filho querido!”

E, quando mais tarde, nossa filha nasceu,
Com encanto e gratidão, dissemos,
“Eis nossa filha querida!”
E tornamos a festejar!

Hoje os dois filhos seguiram
O rumo de suas vidas,
Segundo o desígnio de seus corações,
Aliás, da mesma forma,
Que minha esposa e eu um dia o fizemos

Foi então que me pus a perguntar…
“Será que, de fato,
nosso filho e nossa filha
Alguma vez nos pertenceram?

Quanto aos parcos bens que fomos juntando,
Dou-me conta, de que todos eles haverei de entregar.
Espalhei algumas sementes,
Na esperança de que Deus as faça fecundar.
Um e outro cargo que consegui alcançar
Vejo que outros os estão a ocupar.
Quanto às honrarias que me fizeram
Confesso que me propiciaram satisfação.
Mas sei que, num futuro, talvez nem tão distante assim,
Delas todos se olvidarão

Assim, enquanto meus cabelos
Vão se assemelhando à cor do orvalho,
Cresce em mim a certeza
De que nesta vida
Nada me pertence

Em vista disso, Deus eterno e misterioso,
Permita-me que hoje – um pouco mais sábio –
Eu me volte a Ti e Te chame de meu Pai e Senhor.
Pois, além de saber, que nada me pertence
Aprendi que, neste mundo,
Também eu não pertenço a ninguém.

Por isso, Deus da graça e misericórdia,
Sou-te profundamente grato
Que me permites, em humildade,
Fazer minhas as palavras do Apóstolo
Que, num ato de fé e de entrega confiada,
Assim confessa:
“Se vivemos, para o Senhor vivemos
Se morremos, para o Senhor morremos.
Quer, pois, vivamos ou morramos,
Somos do Senhor”. Amém.

Lothar Carlos Hoch
Praia da Pinheira, 03/06/2011

Angústia

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Angústia

Entra em contato
com a angústia
que ecoa
em tua alma

Dá-lhe atenção
ouça-a
dialoga com ela

A angústia
precisa de espaço
para se expressar

Caso não o fizeres
ela virá a te atormentar
com um rigor ainda maior.

L.C.Hoch
S.L., 11/04/2015